Sábado, 31 de Maio de 2008

Cat Power versão renovada

Depois da última passagem por Portugal, com um concerto na Aula Magna, Cat Power teve honras de casa esgotada naquela que é considerada a mais mítica sala do país, o Coliseu dos Recreios. Sabendo disso ou simplesmente por se ver num espaço de maior capacidade e de alguma imponência, a cantora esforçou-se por não desiludir e por se tentar entregar ao público de uma forma mais natural e descontraída. A espaços, Cat Power ia cumprindo os dois propósitos, mas de forma irregular. A cantora ainda tem dificuldade em enfrentar o público olhos nos olhos e só o conseguiu fazer mais ou menos a meio do espectáculo. Para disfarçar o nervosismo confesso desliza de um lado para o outro do palco, dá alguns goles nos copos que traz consigo ou dirige-se no final dos temas ao responsável pelo som para, com justiça, diga-se, acertar alguns pormenores técnicos. De facto, frequentemente os instrumentos da Dirty Deltas Blues se fizeram soar bastante acima da voz de Chan Marshall, mas também foi o quarteto de suporte da artista que muitas vezes lhe puxou as rédeas evitando que os seus desvaneios degenerassem em "tiros ao lado" e "domesticandos-os" em improvisos que não fugissem demasiado às melodias.


Qual adolescente, Cat Power apareceu com o seu ar jovial de sempre. E é essa, sem dúvida, a imagem que lhe assenta em palco, traduzindo um misto de imaturidade e insegurança com inconsequência, alheamento e irreverência. E esta, porque apesar de tudo se tratou de um bom espectáculo, serviu igualmente para criar belos momentos ao longo do concerto."Jukebox", o novo álbum de versões da songwriter, foi o pretexto para este regresso e a base de trabalho para novas roupagens que Cat Power quis dar ao vivo a temas de outros que já tinha moldado à sua maneira. Bob Dylan foi um dos ilustres homenageados no disco e grande parte das interpretações da cantora trouxe os ecos das suas caraterísticas vocais, aqui em forma feminina. A par disso, o blues foi tónica dominante em termos sonoros, ora mais calmo, ora com nuances mais rock, folk e nalguns casos psicadélicas.' Woman Left Lonely' lembrou um pouco a evocação a Dylan, seguindo-se a 'Don't Explain', (Billie Holliday), que a cantora escolheu para abrir a sua actuação. 'Silver Stalion', num tom mais country mas com mais brilho que na versão em disco rendeu à artista os primeiros grandes aplausos da noite, até porque traria ao de cima as suas capacidades vocais. 'New York, New York', prolongaria por mais um pouco o momento. 'Naked If I Want To', representou outro dos pontos altos da noite, servindo para Cat Power evidenciar a sua voz, em todo o seu esplendor, com uma grande interpretação. 'Song To Bobby' foi das poucas a ser cantada de olhos postos no público. Com a bateria e a guitarra a soarem ao de leve, 'She's Got You' representou uma espécie de bálsamo a antecipar a sua vertente mais aguerrida e mais rockeira em 'Metal Heart'. 'Blue' deixou-a acompanhada só pelo piano e pelo baixo antecedendo uma passagem indistinta para aquilo que se suporia ser um encore com 'The Moon' a dar a deixa para 'The Greatest' revisitado pela metade e inacabado para desilusão de muitos, que fizeram saber ao som dos seus aplausos, que este era um dos mais esperados da noite.
Apesar disso no final desceu do palco e cantou em cima de uma das cadeiras da primeira fila, numa cena a fazer lembrar um pouco o concerto de Patti Smith, ainda que de forma menos efusiva. Cat Power foi a última pessoa a sair do palco e quase que seria uma das últimas a deixar a sala, distribuindo flores pela plateia e despedindo-se com as vénias que foi fazendo ao público ao longo do concerto. Era visível o seu contentamento, pelo esforço e alguns obstáculos definitivamente superados, mas ainda ficamos à espera que Cat Power regresse para um concerto realmente arrebatador.


Ana Tomás

0 comentários: